Desde que me conheço por gente sei que o papel da imprensa é informar mas acho que não é mais dessa forma que as coisas funcionam. Parece que agora quanto mais pânico causar, quanto mais sensacionalismo, quanto mais histeria, melhor mesmo que isso se deva a uma informação NO MÍNIMO equivocada.
Exagerar para vender pode até ser aceito na maioria dos casos ("todos os veículos fazem, se eu não fizer, vou à falência"), mas no caso da decisão da IARC relacionando o celular ao câncer esse alarmismo beirou o ridículo por alguns meios.
E de longe o pior caso foi do Agora São Paulo, um jornal do grupo Folha de São Paulo, voltado para as classes C, D e E: pessoas de baixa renda e baixa escolaridade (sem falar na qualidade do ensino que já não ajuda muito). Essas pessoas não têm muito acesso à informação e muitas vezes acabam confiando cegamente no que lêem no AGORA SP. Exatamente por isso, o veículo deveria ser muito cuidadoso e responsável com o que publica e em que tom publica.
No caso, a referida matéria sobre o estudo da OMS (Organização Mundial da Saúde – órgão ligado à ONU) ganhou uma nota de destaque na primeira página E UMA PÁGINA INTEIRA (a primeira ímpar, no local de maior destaque do jornal). Aí estão as imagens:
Nota na primeira página
Matéria principal
Não tenho nenhum problema pelo jornal ter publicado a nota, o problema é o tom e o destaque que essa nota recebeu. O tom é o mais alarmista possível, no estudo (questionável) da OMS falar ao celular é classificado como tão potencialmente cancerígeno quanto tomar café, por exemplo. Agora porque a nota da capa não foi algo como "Estudo da OMS diz que tomar café dá câncer"? Parece absurdo né? Pois é, assim como falar ao celular também NÃO DÁ câncer, então por que esse alarmismo?
Imagina o desespero do sujeito que comprou um celular novinho, em 12x no carnê lendo um negócio desses? Precisa dar MAIS UM motivo de preocupação pra uma galera que já é a que mais rala pra ter alguma coisa? Será que essa matéria vendeu tanto jornal assim a ponto de valer a pena uma crueldade e irresponsabilidade dessa? Se eu fosse operadora ou fabricante de celular nunca mais colocaria um centavo em anúncio nesse veículo.
Tem um outro fator: esse público é extremamente multiplicador, um único exemplar do jornal passa por toda a família e muitas vezes pelos vizinhos, as matérias são discutidas no metrô, nos ônibus, no trabalho e a credibilidade desses veículos é altíssima "deu no jornal" e tanto faz se é o Agora SP ou o Jornal Nacional, então se publicarem bobagem, essa bobagem vai ter um alcance GIGANTE, ainda mais com tamanho destaque. É lamentável.
Só para registrar que se você olhar no rodapezinho da página tem 2 boxes com "o outro lado", mas até o leitor chegar lá ele já tacou o celular na parede.
E não só isso, olha o tamanho da besteira que esses caras usaram para "enfeitar" a matéria.
Eu até pesquisei, mas essas bobagens não constam no documento da OMS então esse infográfico é com certeza obra de ficção já que não há nem referência da fonte.
Se alguém ficou realmente preocupado com as ondas eletromagnéticas do celular, seguem dois ótimos posts sobre o assunto, o primeiro do Carlos Orsi e o segundo (em inglês) do Phill Plait. E aqui tem o Press Release da OMS (também em inglês).
Pois é... daria até pra rir se essa doença da nossa imprensa não fosse crônica e se não tivesse metástase por todos os órgãos.
1 comentários:
É, acho que a única intenção desse tipo de imprensa é chocar, não importa com o quê, desde que dêem assunto pro povo comentar.
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